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terça-feira, 7 de abril de 2015

Na graça da Páscoa

No Domingo de Páscoa, antes do almoço, andávamos nós à procura de um lugar para comermos (porque este ano resolvemos fazer do almoço de Páscoa uma espécie de piquenique gigante), numa estrada inclinada e estreita, não em muito boas condições, encontrámos a descer um carro que vinha na nossa direcção, indo nós a subir e ele a descer entrando na nossa faixa. O meu pai, que ia a conduzir, desviou-se porque nem percebeu, no momento, o que se passava. Quando olhámos para trás para ver o que é que aquela pessoa queria fazer afinal, seguindo com o olhar o carro que nos tinha feito uma razia e por pouco não nos batera, vimo-lo enfiar-se contra um tronco de uma árvore enorme. 


A primeira reacção foi encostar e ligar para o 112 a reportar o acidente. Mas quase não atendiam, passaram-me duas vezes a chamada e o tempo que esperei pareceu-me uma eternidade. Os três carros que vinham a subir atrás de nós pararam e as pessoas saíram para tentar ajudar quem estava dentro do carro acidentado. Ao longe, porque para conseguir falar ao telefone assim tinha de ser, vi sair logo alguém do lado do pendura e uma pessoa mulher gritar imenso. A minha primeira impressão foi a de que alguém dentro do carro estaria muito ferido, talvez o condutor e que uma terceira pessoa estivesse a gritar por estar em choque com o estado da outra pessoa.

Só depois de pedir socorro é que me aproximei do carro espetado contra a árvore. E nesse momento é que compreendi o que eventualmente se passara: ia a conduzir uma rapariga que nem carta tinha; ao lado ia o alegado padrasto. O homem tinha ferimentos na cabeça e sangue que lhe escorria em rios pela cara abaixo, a rapariga estava já sentada no lugar do acompanhante (tinha passado para lá por dentro do carro, sem abrir a porta do condutor porque não me parece que conseguisse e depois não conseguiu sair do carro porque não se conseguia por de pé/perna), tinha partido dentes, tinha sangue na boca e na cabeça, o lábio inchado e queixava-se imenso do pé e da perna porque "não conseguia andar" e lhe doía. Além disso, ela estava muito nervosa, continuava a gritar e choramingava, que ninguém lhe atendia o telemóvel, que nunca mais iria conduzir na vida e pedia desculpa ao homem que estava com ela.

O carro onde seguiam era um MAZDA com uns 20 anos pelo que não tinha airbags e penso que por isso os ocupantes do automóvel ficaram naquele estado. O carro enfiou-se contra a árvore sem sequer travar, antes pelo contrário, porque aparentemente confundiu os pedais e em vez de travar acelerou quando entrou na estrada. A sorte foi o carro não ter ido contra outra viatura em contra-mão. E as hipóteses não eram poucas, afinal vinham quatro carros a subir - do lado contrário daquele que se enfaixou, numa curva e sob pavimento inclinado e acidentado - entre eles o do meu pai, o primeiro.

Até que a ambulância chegasse pareceu-me ter passado imenso tempo, estava nervosa, sem saber o que poderia fazer e tremia assustada com aquilo a que tínhamos acabado de assistir. Entretanto tentámos acalmar a rapariga, foram-lhes dadas compressas para tentar estancar o sangue e dissemos-lhes que seria melhor não dizerem que era a rapariga a conduzir. Quando finalmente chegaram as duas ambulâncias eles finalmente estavam a salvo e nós fomo-nos embora, deixando-os entregues a melhor sorte.

Só pudemos agradecer a nossa sorte, por não nos ter acontecido nada. E ainda por não ter acontecido nada pior àquelas pessoas - afinal, o carro ter batido contra a árvore impediu-o de capotar ribanceira abaixo, ser um carro antigo, apesar de não ter airbags, é mais forte e resistente do que a maior parte dos mais recentes nos quais, uma pancada como aquela, teria certamente feito pior estrago, além de não ter batido nem ferido mais ninguém.

Não pude evitar ficar a pensar naquela cena durante o dia todo, dando graças pela nossa sorte e pela protecção divina que nos acompanhava. E, é claro, impossível não lembrar da arma fatal que um carro pode ser nas nossas mãos e dos riscos que implica estarmos na estrada porque num segundo tudo pode mudar e podemos deitar tudo a perder - não somos só nós que importamos porque não somos os únicos na estrada ou a conduzir.

1 comentário:

  1. Que episódio... :( Mas pelo menos as pessoas ficaram bem, pelo que entendi. Realmente o carro é uma arma perigosa, é importante a atenção à própria condução mas também "prever" os disparates dos outros. Pegar num carro exige muita responsabilidade e tem que ser encarado como algo sério, cumprindo as regras e estando atento.

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Muito obrigada pelas tuas palavras!