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sexta-feira, 1 de abril de 2016

Desabafos de uma estagiária


Lentamente, as coisas lá têm avançado no meu estágio. O tempo voa e já estou a três meses do término do prazo para candidaturas a novos exames (primeiro escritos, depois orais). Até lá tenho de ter preparadas uma série de diligências e os respectivos relatórios.
Apesar de nem todas serem assim, esta semana foi boa. Pude trabalhar (acompanhar, inteirar-me, aprender) três dias. Para mim é uma maravilha. Se todas as semanas fossem assim já seria bom. Mas nem sempre há disponibilidade nem oportunidade. Apesar de querer muito estar lá a tempo inteiro, sei perfeitamente que sou mais uma preocupação para alguém que já tem muito com que se preocupar e que aceitou ajudar-me de boa vontade, sem me conhecer de lado nenhum.
Já me aconteceu imensas vezes mas ainda não ganhei coragem. Queria perguntar se há lá possibilidade de continuidade para mim, se me poderiam pagar alguma coisa, se posso sossegar. Porque eu adoro lá estar, fui muito bem recebida, tenho sido muito bem tratada, são muito pacientes comigo, explicam-me tudo o que eu quiser e tenho aprendido imenso. Mas é claro que eu precisava de alguma remuneração para me manter. O que me tem impedido de ter esta conversa, além do facto de lhes estar muito grata, é sentir que não sou autónoma o suficiente para exigir uma compensação monetária em troca. Afinal eu estou a consumir-lhes tempo.
O meu patrono leva-me a reuniões, apresenta-me a toda a gente (juízes, clientes, funcionários judiciais e colegas) como sua advogada estagiária, permite-me assistir a diligências em tribunal e deixa-me ir ao escritório as vezes que lhe são possíveis. Tenho notado, de há uns tempos para cá, que tenta manter uma rotina, na qual, em regra, vou lá duas vezes por semana, nos mesmos dias, intercalados. Já é bom haver algo mais regular mas ainda sinto que é pouco para me inteirar de tudo ou sentir-me parte daquilo, para aprender mais e saber como tudo se desenrola. Passar lá umas tardes por semana parece-me não chegar ainda. Ao mesmo tempo, sei que dou trabalho ao lá estar e por isso tenho receio de pedir mais. Mas a verdade é que quanto mais próxima de tudo aquilo eu estiver, mais fácil será para mim aprender como funciona.
Ontem fiz a minha primeira peça escrita, em conjunto com o meu patrono, como é óbvio, mas uma coisa tão simples fez-me sentir tão bem! Fiquei mesmo satisfeita. Fiz questão de perceber como o devo fazer, não só o trabalho em si mas toda a restante formalidade, de submissão, envio e organização no escritório. 
O meu patrono já me disse que eu devo ser mais pro-activa mas por vezes tenho receio de incomodar as pessoas e por isso não "me meto", ficando quieta no meu canto. Já percebi que tenho de o fazer, ainda assim, quando achar que faz sentido. Foi o que fiz ontem, fui ter com a funcionária, pedi ajuda, percebi como se fazia, acompanhei o processo até ao resultado final e foi óptimo.
Sinto-me lá muito bem mas como não tenho qualquer rendimento já tenho procurado trabalhos noutras áreas porque angustia-me estar nesta situação tão dependente e limitada ainda. Como não quero sair daquele escritório, tenho procurado trabalho noutras áreas, para tentar conciliar e arrecadar algum à parte. Mas a verdade é que não há muita coisa conciliável com horários que não são certos e eu volto sempre à estaca zero. Não quero deixar de estar disponível para o escritório porque é o meu objectivo agora mas dedicar-me totalmente a um estágio que não me dá qualquer remuneração é muito, muito complicado. É muito difícil continuar a investir há tantos anos (sete) e persistir e insistir para me manter na área que escolhi como profissão.
E é este o meu dilema mas chego sempre à mesma conclusão, por mais que já tenha pensado em mil soluções, a vontade de falar e pedir que me queiram lá sempre, com um ordenado ou qualquer espécie de remuneração nunca é suficientemente forte para superar o medo da resposta e me dar coragem para questionar. É ridículo mas é este o meu estado.

1 comentário:

  1. Deve ser complicado de gerir, mesmo... Força e espero que consigas arranjar uma boa solução rapidamente.

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Muito obrigada pelas tuas palavras!